quinta-feira, julho 05, 2007

O coração dos aflitos balança dentro do peito.

Na noite passada, ao deitar-me senti um aperto no peito e uma falta de ar, meu braço esquerdo doía, mas foi por poucos minutos, em seguida a dor passou. Permaneci deitada, sem sentir nada, nem dor, nem calor, nem frio. Fiquei olhando para o teto, lembrei das coisas que eu teria para fazer no dia seguinte. Levar o carro para lavar, almoçar com a Ana, trocar as cortinas do consultório e aquele tapete horrível. No fim do dia eu traria salmão para assar com maracujá e beber com vinho branco, olharia para o rosto do meu amor e, já levemente embreagada, diria coisas sobre como ele é bonito, como o amo e o quanto o admiro. Riria da sua expressão envergonhada por receber elogios e ele diria que não consegue parar de comer, riríamos juntos. Então colocaríamos um filme, mas antes do fim dos traillers já estaríamos semi-nus.
Percebi que não conseguiria mais dormir, desci as escadas em direção à cozinha, a luz já estava acesa. "Estranho", pensei, não costumo esquecer de apagá-la. Peguei um copo no armário, enchi com água do filtro e bebi. Estava com tanta sede que nem senti a água entrar. Deixei o copo sobre a pia e, ao sair da cozinha, pressionei o interruptor mas a luz não apagou. Poderia ser mal-contato, eu resolveria no dia seguinte. Subi novamente ao quarto e, tamanha surpresa tomei quando vi meu corpo deitado, que parei de respirar. Fechei os olhos, abri, ele continuava lá. Peguei o telefone para chamar alguém, ele estava mudo. Sentei na poltrona ao lado, me acalmei. Agora eu era uma alma. E agora? O que uma alma faz? Por que eu ainda não estava no céu, nem no inferno? Ops... não questionarei novamente, vai que me mandam pro inferno? Não lembro de boas ações que pudessem me salvar... Bom, até resolverem o que farão comigo, eu, que nem sabia que morri, vou ter que replanejar o dia de amanhã.... vou sentir saudades do meu amor... E do salmão e do vinho também.